Apenas minhas letras insanas...
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
O Violão
Estava naqueles dias em que o tédio não a importunava. Queria, aliás, ficar sozinha com a sua pasmaceira. Mas alguém tocava um violão, em algum apartamento no mesmo bloco.
E numa tarde de um outono qualquer, os acordes precisos lhe chegaram driblando pelo caminho as ondas sonoras do burburinho urbano.
Parou tudo o que não estava fazendo, só para ouvir...
***
quinta-feira, 10 de março de 2011
Trilha Sonora

Já vivi uma cena assim, de novela
Já corri para os seus braços, vestida de branco
À beira da praia
Tão jovem, tão jovem…
Você me ergueu tão alto
E eu me apoei em seus ombros
Um daqueles momentos em que a vida faz sentido
Como naquele filme romântico, como aqueles quatro dias
E é desses momentos que minha vida se alimenta
O meu conto de fadas que não tem final algum
O meu oásis de águas frescas e perfumadas
Em meio ao trânsito tresloucado e escaldante
Está bem aqui, em minha mente, minha memória
E eu nem preciso fechar os olhos para ver os seus,
Tão límpidos
Enquanto ouço Little Wing
E sou feliz
…feliz
***
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Caminhada

Lembra da ruazinha de pedras, aquela vila de casinhas geminadas? Cada uma delas tinha um jardim na frente. Você gostava daquela que tinha uma roseira amarela. Você sempre gostou mais das rosas amarelas.
Agora, a vila é um estacionamento. Demoliram as casinhas, olha.
E eu nunca tive coragem de roubar uma rosa amarela pra te dar.
Lembra quando a gente ia a pé até a padaria só pra brincar com o Fiel? O vira-latas que vivia naquela casa bonita, colorida por mosaicos de azulejos portugueses que você amava! Lembra do Fiel? Ele corria no portão e fazia festa com qualquer um que lhe desse um pouco de atenção. E de carinho.
E desconfio que ele gostava mais de você…
Lembra daquela pequena loja japonesa? A, do fotógrafo? Ele colocava um mundo de fotografias dos clientes na fachada. E a gente ficava lá, um bom tempo, procurando um rosto conhecido. Nunca achamos um retrato nosso.
Olha, agora é uma lan house.
Ah, a praça…Era aqui que as quermesses aconteciam. Que saudade daquelas noites frias. Você me pedia para aquecer as suas mãos…Lembra?
Lembra do correio-elegante? E da música que eu te ofereci naquela noite de São João, quando você estava começando a namorar aquele garoto sem graça da sua rua? Lembra? Eu mandei Paul McCartney… “My Love”. Ah, você se derreteu.
Lembra?
As quermesses acabaram. A praça também. Olha, lá. Agora é um terminal de ônibus. Cheio de gente cansada, sofrida. Vê?
Tudo mudou por aqui.
E eu que estive tão longe, por tanto tempo.
Como eu lamento, meu amor, não ter vivido ao seu lado enquanto isso tudo acontecia.
Como eu queria acreditar que você está aí, me esperando. Confiante na minha redenção.
Como eu queria acreditar que você me escuta neste exato momento.
Mas não creio, não creio…
***
Foto do site:Olhares Fotografia Online
Autora:Adriana.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Na pele do poeta

Quando eu a vi, ela trançava os cabelos e cheirava a pitanga. As pernas molhadas, vestido colado, os pelos brilhando, dourados, à luz do dia.
Assim, sentada meio largada, na beira do cais, flertando com o mar, sorrindo pra mim. Assim, meio santa, meio devassa, deusa, criança …Ai, me perco de mim!
Quando eu a vi, ela inundava de mel o verde do mar com a viveza do olhar. E matava de inveja as espumas das ondas que açoitavam as rochas numa fúria sem par.
Quando eu a vi, ela dançava, cigana. Cantava, cigarra. Criatura profana em estado de graça!
Quando eu a vi, fiquei cego às leis deste mundo e levitei - giramundo! - sobre homens e deuses.
Quando eu a vi, um pouco morri, desvairado sofri feito cão moribundo
Quando eu a vi, ela trançava os cabelos e cheirava a pitanga…
E eu me perdi de mim.
***
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Pausa

Apenas um momento para sentar na varanda.
Apenas um momento para fitar o horizonte.
Um mar de casas e casinhas e de espigões que se intrometem entre elas e as praças.
Apenas um momento em que o esquecimento se faz presente e a letargia é bem vinda.
Um momento, apenas, entre nós duas. A vida e eu.
Um sagrado momento para fazer nada.
E respirar fundo.
***
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
O moleque e a pipa

Ele franze os olhos miúdos, driblando a claridade do Sol. Dá toquinhos na linha, descarrega, mergulha. A pipa está bem alta, o vento está bom.
Sorrateiramente, o inimigo se aproxima. Ótimo! O moleque gosta dum desafio.
A batalha começa, então. As pipas, como se vivas fossem, se bicam aqui e ali, ciscam pra lá e pra cá. As rabiolas, uma verde, outra vermelha; serpenteiam, sinuosas, no azul.
De repente, uma pipa bóia. Sai planando, rodopiando, fugindo.
O moleque sai em disparada. Corre olhando pra cima, saltando os buracos que sabe de cor.
Desce ladeira, pula o muro, atravessa a praça! Ligeiro! Anda!
Ele estanca e pragueja. Presa no fio de luz. A mãe proibiu de pegar… Volta devagar, aborrecido.
Mas logo está correndo de novo, saltando os mesmos buracos, cruzando a mesma praça!
Sonhando com as cores do papel de seda que vai comprar. Cola,vareta e linha! Lá na venda do seu Quinzinho. Põe na conta, tio!
Amanhã tem pipa, da cor do meu time!
Amanhã o Sol brilha de novo, apesar dos buracos da rua.
***
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Chuvarada

Paro tudo para ver a chuva. À noite,então,espetáculo imperdível. E hoje,ela cai enfurecida. Ou seria,feliz da vida? Vem acompanhada pelo vento que tira as gotas pra dançar.Magnífico bailado iluminado pelas luzes da cidade. Melhor ainda quando vem em noite alta,avenida emudecida,quase deserta. Só o barulho da chuva,chuvarada… E dos trovões,relampejantes,poderosos e abusados. Raios partam a minha tristeza!
E o cheiro? Ah, o aroma da chuva! Aspiro este cheiro de vida, de terra molhada. E de onde ele vem? Dos tímidos jardins, dos minúsculos canteiros que sobrevivem cercados pelo cinza do concreto proliferante. Mas talvez ,também, venha de longe,muito longe. Trazido pelo vento forte que gosta de dançar com a chuva.
Chuva,chuvarada…Aos poucos,ela se acalma. Cai mansinha,extasiada. Como quem acaba de fazer amor..
Estendo,então,a minha mão e me despeço dela,levando comigo o seu frescor e agradecendo a sua graça.
Vou para a minha cama,inspirada pela chuva, em busca dos meus braços amados e percebo que,às vezes,ser feliz é muito simples.
...
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Flores de Inverno

Olhar para as árvores, para suas copas quase nuas filtrando os raios de luz de um dia de céu estupidamente aberto.
Olhar para as flores que pipocam nos galhos sem folhas e enfeitam este inverno seco e claro de temperaturas amenas.
Flores que pontuam o azul feito estrelas e que soltam suas pétalas derramando lamentos sobre as calçadas. Tal qual estrelas cadentes.
São persistentes. Insistentes. Sobreviventes.
Bravas e belas flores de inverno que desafiam a primavera!
É para elas que eu olho.
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