Apenas minhas letras insanas...
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terça-feira, 23 de julho de 2019

Gravatinha borboleta




O compromisso mais importante do seu dia era pôr o lixo para fora.
Escolhia, com esmero, a camisa mais bem passada. Lustrava os sapatos, ajeitava a gravata borboleta até estar satisfeito com sua perfeita horizontalidade.
Alinhava os cabelos até que nenhum fio mais ousado se rebelasse.
Conferia a própria imagem no espelho diversas vezes, de todos os ângulos possíveis.
Finalmente, botava suas luvas de borracha, pegava seu único saco de lixo muito bem amarrado.
Fazia questão de esperar o caminhão de coleta no portão de sua casa impecável.
Ereto e com uma expressão impassível, sempre esperava que o coletor viesse ao seu encontro. Então jogava o saco de lixo aos seus pés e o olhava de cima a baixo, com um quase imperceptível sorriso de escárnio.
Destilava superioridade por todos os poros e se esforçava, de forma hercúlea, para demonstrar, apenas por seu olhar, todo o desprezo que fosse capaz de sentir.
Voltava, então, triunfante para o seu castelo.
Sentava-se à mesa, prévia e perfeitamente, posta. E começava seu desjejum.
E mastigava suas torradas perfeitas olhando para uma parede branca, de azulejos limpíssimos, frios.
E, como sempre, todos os dias, se fundia à simetria perfeita dos quadradinhos enquanto um vazio brutal o consumia e o devorava até não sobrar sequer resquício do prazer fugaz de que desfrutara minutos atrás.
No outro quarteirão, dois jovens pendurados no caminhão de lixo conversavam, animados, sobre o jogo do último domingo. E combinavam o próximo churrasco entre amigos.
Nenhum deles reparou na gravatinha.
















terça-feira, 27 de setembro de 2011

Brilho Efêmero


  Silêncio. Concentração. Ela fecha os olhos, respira fundo e, então, abre seu melhor e mais belo sorriso. A música começa e o lilás salpicado de pequenos brilhos desliza e funde-se à brancura leitosa do gelo.
  Leveza e graça em movimentos que beiram o sublime.
  Corpo e música em perfeita harmonia, como se de dentro de sua alma saíssem as notas melodiosas.
  Desliza, irretocável. Abre os braços em frágil equilíbrio, veloz, parece voar. Dá o primeiro salto duplo, perfeito. Parece tão fácil!
  O público, hipnotizado, demora alguns segundos a reagir com merecidos aplausos. Em completo êxtase ela continua sua rotina de encantamento e, impondo mais velocidade, executa dois saltos triplos aterrissando em perfeito equilíbrio. A audiência delira, emocionada.
  Ela baila, então. Menina-mulher. Inocência e sedução.
  Percorre todo o ranking num footwork gracioso, desenhando suas figuras em "S".   A música torna-se ainda mais intensa e surgem as fantásticas piruetas, o lilás rodopia, rodopia....
  Nos últimos acordes, o último salto, o mais audaz.
  A queda.
  Um "Oh" em uníssono a ensurdece. Por alguns segundos não ouve nada, não vê nada. Nada sente.
  Mas a anestesia pouco dura. Ergue-se. Supera a dor. Retoma a rotina. Desliza e improvisa pois a música está acabando.
  Executa a última pirueta, feito um tornado. E estanca exatamente no último acorde. Perfeito.
  O público a aplaude de pé.
  Ofegante, ela sorri. Mas dos olhos, que nada escondem, rolam as lágrimas.



***

sábado, 16 de outubro de 2010

Meu doce espectro...




"Sorrir,bailar,viver,sonhar contigo..."




E num felicíssimo caso de esquizofrenia bem sucedida,viveu e sorriu,bailou e amou,sofreu quando quis!
Por Deus, morreu feliz!!!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Voo sobre o Tsunami


Deram-se as mãos. A grande onda se aproximava,imperiosa. A areia molhada e fria sob os pés. Mas ele estava ao seu lado e a olhou sorrindo. Um sorriso cheio de paz. A abraçou ternamente e ela o amou como nunca amara antes. Sem o mínimo esforço ele alçou seu voo levando-a com ele. E ela sentiu seu calor,sua força,sua beleza. Planaram sobre as águas revoltas inundando o vasto continente num espetáculo tão belo quanto devastador. A implacável lei da vida.Sentiu-se leve,tocada por uma luz,uma felicidade plena. Serena,deixou-se levar por seu amado,rumo ao infinito.








domingo, 25 de abril de 2010

Na Companhia das Sombras


Não se sentia um solitário, tinha em suas sombras, vasta companhia.
Com elas conversava, dançava...
E dele todos riam e apontavam: doido varrido!
Magoado e cansado de tanta incompreensão, fez as malas e levou consigo suas sombras.
Mas com ele foram todas as outras e, naquele longínquo lugar, nunca mais alguém faria sombra.
Nem mesmo as frondosas árvores, nem mesmo as inocentes crianças.
Perderam,assim, as suas almas, pois, a capacidade de sonhar já haviam perdido desde sempre.




sábado, 17 de abril de 2010

O Convento


Queria transpor os altos muros. De lá,em meio às dunas,só podia ouvir-lhes o canto. Vozes maviosas! Dulcíssimas vozes!

E ficava a imaginá-las,virgens santificadas! E ele,entregue às armas,refém de todos os ódios!

E alimentava-se delas, de sua pureza e candura. E sentia-se,ele próprio,purificado. E,por ora, isso lhe bastava para limpar suas mãos do sangue que derramava, a cada batalha, na defesa de um reino que,por fim, nem amava.

Um dia,iria transpor os altos muros e a elas entregaria, de bom grado, sua vida,sua alma.





quarta-feira, 24 de março de 2010

O Trem

Acomodou-se no camarote. De bagagem levava apenas uma maleta de mão. Estava realmente cansada. Física e emocionalmente. Ansiava pelo chacoalhar do trem, só queria fechar os olhos e descansar. Rezava para que ninguém mais ocupasse o aposento. Não queria dividir sua dor, não podia.
Lembrou-se da última viagem que fizera ao lado dele. E dela. Olhou para o banco vazio à sua frente. Podia vê-la ali sentada, sorridente. Ele, ao seu lado, embora segurasse a sua mão, dava a ela toda a sua atenção. Ciúme sempre sentiu mas tentava ser compreensiva, paciente. As pessoas mais chegadas diziam que seria bobagem tentar afastá-los e, afinal de contas, seria uma maldade fazer intrigas entre dois irmãos. O que não sabiam ou não entendiam era a influência nefasta que ela exercia sobre ele. Tolos que não enxergam! Rebeca, sua fascinante cunhada que já havia recusado mais de uma dezena de pedidos de casamento, dos mais influentes e cobiçados cavalheiros da província. Sua beleza exótica e radiante já causara até duelos e mortes. E ela parecia se divertir muito com tudo isso.
Um homem parou à porta do camarote e a tirou de seus pensamentos. Cumprimentou-a ,cordialmente, tirando o chapéu. Sentou-se à sua frente tentando não desabar com seu pesado corpanzil. Ela o observou e lamentou profundamente a sua presença. O homem ajustou os pequenos óculos redondos e sorriu, amável. Ela retribuiu com má vontade.
O trem, finalmente, se pôs em movimento depois de um longo apito que mais parecia um lamento. Sua mente voltou novamente ao passado. Um passado recente, apenas algumas semanas atrás. Olhava pela janela, via passar as montanhas com os picos nevados que tanto a encantaram, a sua vida toda. Vida. Que vida teria agora?
Chovia muito quando chegou em casa. A sombrinha não dera conta de tanta água e vento forte. O vestido encharcado e pesado lhe irritava, subiu as escadarias com dificuldade já soltando os cabelos molhados, louca para se livrar de toda aquela mortalha. No corredor já ouviu os gemidos, os gritos histéricos de Rebeca, suas gargalhadas. Não teve coragem de abrir a porta do próprio quarto.
Sentiu novamente a mesma repulsa, o mesmo ódio, a mesma fúria. Flagrou-se apertando o próprio chapéu entre as mãos, apertando o maxilar, rangendo os dentes. Tratou de se acalmar, não estava sozinha e aquele homem não lhe tirava os olhos.
Não lhe restava mais nada. Nem sua dignidade. Curiosamente, não havia chorado em nenhum momento. Nenhum momento. Abriu a janela e respirou o ar gelado que entrava. Tentou decifrar os cheiros que sentia. Então, lhe ocorreu. Quanto tempo levaria para que descobrissem os corpos?
Foi quando o simpático cavalheiro a chamou pelo nome e mostrou-lhe seu distintivo.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Acaso Escrito nas Estrelas


Simplesmente resolveu enforcar o resto do dia. Não voltou para o escritório após o almoço.Não sabia direito o que fazer, só estava com vontade de "vadiar".Quando viu que aquele filme que ela amava estava em cartaz no pequeno cinema ,pertinho do restaurante,achou que os deuses conspiravam alguma coisa. Sentou-se na última fileira. Queria ficar sozinha. Curtir o filme que já conhecia tão bem mas não se cansava de rever. Sempre se emocionava e descobria algo de novo nas mesmas cenas.

Apagam-se as luzes,sensação boa. Respira fundo, acomoda-se melhor. Surgem as primeiras cenas,paisagens bucólicas, a música maravilhosa.

Magnetizada pelo filme,não percebe o vulto se aproximar. Apenas o descobre quando sua poltrona estremece ligeiramente. O sujeito senta-se a uma distância de três lugares.

Fica um pouco irritada. O cinema praticamente vazio, que inconveniente!

Ele cancelou a viagem no último momento. Bateu uma baita preguiça de ir para aquele congresso. E,curiosamente,não sentiu um pingo de culpa. Logo ele,sempre tão dedicado! No caminho do aeroporto pra casa resolveu mudar de rumo. Lembrou-se de um aconchegante shopping onde havia um café que costumava frequentar tempos atrás. Um cappuccino,agora,cairia bem.

Relaxou por algum tempo e resolveu caminhar. Sentia-se bem e ,afinal, quando teria outra oportunidade pra fazer nada?

Viu o cartaz do filme no pequeno e charmoso cinema. Deu-se conta que ainda não tinha visto o dito cujo. O que as mulheres tanto gostam nesse filme,afinal?

Entrou pela sala escura,o filme já havia começado. Foi tateando ,meio cego, até chegar à última fileira. Queria ficar sozinho.

Só percebeu que havia mais alguém ali quando sentiu um perfume almiscarado. Que droga! O cinema praticamente vazio,tanto lugar pra escolher!

Na tela, a atriz explode numa gargalhada com as flores falsamente venenosas nas mãos. Subliminar sensualidade. Extasiados, os dois sorriem. A cena os conecta e se olham pela primeira vez ,iluminados pela resplandecente fotografia do filme.

Então,tudo fez sentido.



segunda-feira, 1 de março de 2010

Triângulo


Seus olhos negros,olhos negros...


Não estava atormentado,tampouco arrependido. Também não estava exatamente feliz. Aliviado,talvez,o descrevesse melhor.Sorriu.

Entrou no quarto escuro tentando não fazer barulho. Tirou a roupa toda enquanto a olhava,deitada,dormindo profundamente. Sentou-se na poltrona que era dela. Observou a silhueta que se desenhava por baixo dos lençóis,sabia-a nua,sempre dormiam totalmente nus. Admirava-a. Fêmea. Curvas.

Sorriu novamente ao tentar contabilizar quantas vezes já havia tomado aquele corpo para si. Não havia centímetro um do outro que não conhecessem.

Se ela pudesse entender,ele contaria. Incomodava-o,enganá-la. Quando viu Joana,porém,sabia que ia acontecer. Tão certo quanto o Sol se pôr.

Não fora a primeira vez. E não seria a última. Sabia do seu poder sobre as mulheres. E não resistia ao ímpeto com que algumas o caçavam. E aquele aro na mão esquerda que mais parecia atrair do que repelir. Mas ele bem que tentava,não era sempre que sucumbia. Há séculos estava sossegado. Até surgir Joana.

Joana e seus olhos,olhos negros. Joana e seu sorriso. Mais do que isso, sua gargalhada solta,safada. Seus peitos,lindos,que arfavam enquanto ela ria.

Ainda jogado na poltrona ,olhando para Mônica,repassou em sua mente cada minuto vivido há poucas horas. Podia quase sentir de novo em seu corpo, o calor da outra.Possui aquela mulher com tal selvageria,com tanta fome, quase com raiva. E ela pagou-lhe na mesma moeda,esfomeada. E como foi bom,não podia negar. Afinal,não era hipócrita.

Devassa...Mas não era sua linda Mônica,também,uma devassa? E só sua. Numa mesa de bar,entre amigos,um olhar mais demorado telegrafava tudo. Havia ensinado tantas coisas a ela e como aprendeu também! Como ela o surpreendia,às vezes. Nunca sabia quando ela o comeria,quase literalmente,senhora do castelo. Ou quando se deixaria possuir tão completamente,o que o deixava maluco,com vontade de virá-la do avesso. Nunca precisaram de joguinhos,apetrechos,nada além um do outro. Nutriam uma coisa rara,intimidade. E essa intimidade era o pilar,dali podiam tudo. E tudo faziam. Sem limites,sem regras,sem culpas,sem cobranças.

Então, por que Joana?

... porque sim.

Levantou-se,leve como pluma,deitou-se ao lado dela e a abraçou com ternura, envolveu um dos seu seios com uma das mãos,como sempre fazia. Adormeceu sentindo o perfume dos seus cabelos. Morreria por ela.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pecado


Desligou o carro e hesitou por alguns instantes.Já o avistara,sentado nos
degraus da entrada da casa,no escuro,sozinho. Saltou,enfim. Fechou a porta
do carro,devagar.Não tinha por onde passar,ele bem sabia onde esperá-la,só
não sabia se ela voltaria aquela noite ou ficaria com o outro.Ela se aproximou
lentamente,os dois se encaravam. E ele a olhou como antes,como anos atrás,
quando aquele fogo proibido se acendeu e destruiu tudo à sua volta.Ela,então,
sentiu medo e júbilo,confusa e excitada pela idéia de reviver,de incendiar tudo
outra vez. Que se dane isso tudo! Deram-se as mãos,não precisaram falar nada.
Ela abraçou sua cabeça e ele desabou em seu colo,chorando. Sua boca procurou
a dela e sentiram o mesmo gosto de antes. E foi como se os anos não tivessem
passado,como se fossem os dois adolescentes descobrindo a vida,a luxúria, a
lascívia,a paixão. Mas amavam-se agora. Um preço alto a pagar.
Ela se desvencilhou e subiu para o seu quarto. Ele ficou novamente sozinho,
com o cheiro da mulher amada a lhe atormentar e a alma dilacerada pela culpa
e pelo desejo.
Em sua cama,olhando para o teto,ela esperou. Ouviu os passos do primo,sentiu-o
parado à sua porta. Mas ele prosseguiu. Foi em direção ao quarto de hóspedes,
onde sua esposa dormia,ao lado do berço do recém nascido.
A ela nada restou a fazer além de enterrar a cabeça no travesseiro e chorar a
saudade do que não viveu.

domingo, 11 de outubro de 2009

My Guy


Noir Cliché...


Ouvia Back to Black. Ajustava a meia de seda, negra, à
cinta-liga. Olhava-se no espelho, os cabelos, negros, em cascata.
Fartos. Assim como os seios que transbordavam, insinuantes,
para fora do soutien, negro, de renda. Jogou o vestido por cima
do corpo, deslizante, quase colado, negro.Uma fenda que se estendia
coxa acima e um decote generoso. O perfume e o batom, toque final.
O hotel e o quarto.
Tons de cinza transitavam entre o branco e o negro, onde
as únicas cores vinham da sua boca vermelha e do azul dos olhos dele.
Ele. Sentado, esperando, sorrindo. E ela caminhou feito diva, ajoelhou
sobre o sofá, agarrou-lhe a nuca e o beijou como nunca. E seus olhos,
negros, fundiram-se no azul e ela o quis, mais uma vez. E saciou-se dele
enquanto a fria pistola esperava, inerte, na pequena bolsa.
My guy. . .
Ganhou as ruas sem o vermelho da boca que deixara nos
lábios dele. E no quarto do hotel outro tom de vermelho escorria do
peito e o azul permanecia nos olhos, abertos, sem vida.
Back to Black.