Apenas minhas letras insanas...

sábado, 7 de dezembro de 2024

Verdes...

 Os olhos verdes, translúcidos.

De um tom que eu não consigo decifrar.

São vítreos, esferas de jade.

Brilham, brilham tanto!

E me conduzem, me levam por onde ela quiser.


terça-feira, 12 de março de 2024

Periferia


Por aqui, tudo é muito colorido.

Terracotas e azuis.

Vermelhos e amarelos.

Verdes nos muros e nas árvores.

Multicores nos varais ao vento.

Rabiolas serpentinas riscando o azul do céu.

Caquinhos divertidos salpicando os quintais.

Quando chove, curioso, as cores se destacam.

Se brilham sob o Sol, 

É quando a chuva acinzenta o dia

Que elas explodem atrevidas!

E as tardes findam compondo aquarelas

Às vezes são rosadas, outras, alaranjadas.

E tem aqueles dias em que tudo fica azul

Azulado feito Jodhpour!

Quem diz que minha terra é cinza?








terça-feira, 25 de abril de 2023

Clarice

 Sim, eu ainda te amo, disse ela, enquanto botava alguns bibelôs na caixa de papelão. Eu ainda te amo, mas no momento eu te odeio mais.

 Ele desviou os olhos cheios de culpa. Se pudesse voltar no tempo. Apenas três semanas atrás. Faria tudo diferente!

 Olhou para ela novamente. Curvada sobre a caixa arrumando meticulosamente seus pertences preciosos. Se bem a conhecia, sabia que não sobraria espaço vazio. Tudo haveria de se arranjar harmoniosamente.

  Não existem atalhos para Clarice. Nem nuances.

  Apenas três semanas atrás. Faria tudo diferente?

  Não.

  Adeus, Clarice. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Graças a Deus existem os periquitos.

 


Aquele brilho intenso, dourado. Fruto do Sol batendo no alto do prédio espelhado. Já fotografei tantas vezes.

Já fotografei tantas fases e faces da Lua.

Aviões e nuvens, céu de brigadeiro. Tantas e tantas vezes e de todos os ângulos que eu pude perceber.

Uma mão segurando o queixo, a outra segurando a câmera. Inerte.

E a tarde se vai sem deixar marcas.

Mas, felizmente, existem os periquitos.

Esses seres endiabrados que surgem verdejando tudo. Não sossegam nem por um segundo. Uma algazarra sobre a mangueira frondosa.

A tarde finda, a luz se vai aos poucos.

E eu, finalmente, me divirto clicando furiosamente aquelas criaturinhas barulhentas.

O saldo são dezenas de imagens abstratas, difusas, desfocadas, esverdeadas. Lindo de se ver.

Graças a Deus existem os periquitos.

Graças a Deus...

 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A Árvore



Olhou para cima com o verde dos olhos
E estes encontraram o verde da árvore
Copa frondosa, vibrante, viçosa.
Ouviu o alarido dos periquitos
Tão verdes quantos seus olhos
Farreavam entre as folhas
Invisíveis, camuflados.
E a árvore, tão generosa
Trazia-lhe sombra e frescor
Frutos e cores
Libélulas, cigarras e pássaros
A cura para suas dores.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

Libélula



Uma libélula pousou à minha frente
Sobre a grade da varanda
Asas translúcidas, brilhantes.

Parecia me encarar tão serenamente
Aproximei a minha mão
Já esperando a debandada.

Mas, ela ali ficou
Imóvel, quase transparente
Tão linda, transcendente.



terça-feira, 23 de julho de 2019

Gravatinha borboleta




O compromisso mais importante do seu dia era pôr o lixo para fora.
Escolhia, com esmero, a camisa mais bem passada. Lustrava os sapatos, ajeitava a gravata borboleta até estar satisfeito com sua perfeita horizontalidade.
Alinhava os cabelos até que nenhum fio mais ousado se rebelasse.
Conferia a própria imagem no espelho diversas vezes, de todos os ângulos possíveis.
Finalmente, botava suas luvas de borracha, pegava seu único saco de lixo muito bem amarrado.
Fazia questão de esperar o caminhão de coleta no portão de sua casa impecável.
Ereto e com uma expressão impassível, sempre esperava que o coletor viesse ao seu encontro. Então jogava o saco de lixo aos seus pés e o olhava de cima a baixo, com um quase imperceptível sorriso de escárnio.
Destilava superioridade por todos os poros e se esforçava, de forma hercúlea, para demonstrar, apenas por seu olhar, todo o desprezo que fosse capaz de sentir.
Voltava, então, triunfante para o seu castelo.
Sentava-se à mesa, prévia e perfeitamente, posta. E começava seu desjejum.
E mastigava suas torradas perfeitas olhando para uma parede branca, de azulejos limpíssimos, frios.
E, como sempre, todos os dias, se fundia à simetria perfeita dos quadradinhos enquanto um vazio brutal o consumia e o devorava até não sobrar sequer resquício do prazer fugaz de que desfrutara minutos atrás.
No outro quarteirão, dois jovens pendurados no caminhão de lixo conversavam, animados, sobre o jogo do último domingo. E combinavam o próximo churrasco entre amigos.
Nenhum deles reparou na gravatinha.
















quarta-feira, 17 de julho de 2019


Eu tropeçava nas pedras jogadas por eles, desviava de suas lanças.
Ignorava suas injúrias. E prosseguia.
E eles não suportavam o meu olhar.
E eles se acovardavam e se apequenavam a cada investida.
E não suportavam o meu olhar.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Holograma





Nem mesmo durante as minhas caminhadas os meus problemas me abandonam. Estão sempre me importunando, pipocando aqui e ali.
Desviando a minha atenção dos jardins coloridos pelas flores de Inverno, da festa do cachorro, do cheiro de pão quente que exala daquela velha padaria sempre à mesma hora.
Olho para o céu, procuro pelas nuvens que sempre me encantam com sua impermanência. Mas nem sua beleza efêmera me alivia essa angústia muda, travada.
O burburinho das crianças e adolescentes entrando no colégio é um sopro de vida que tenta espantar esse medo não sei nem do quê. Mas esse sopro logo se esvai,  não resiste por muito tempo.
Tento, então, pensar em nada.
Respiro fundo e sinto o vento gelado e cortante arder no meu rosto.
E é nesse momento que você me vem à mente. Tão nítido como um perfeito holograma. Por alguns segundos, apenas. Vejo seus olhos que guardam tantos segredos. Seu sorriso contido, tão raro e, justamente por isso, tão precioso.
Aí me percebo sorrindo também.
Só então me dou conta de uma pessoa se aproximando, já quase passando por mim. Seus cabelos lembram as nuvens que tanto me encantam, suas rugas me acolhem e me amparam. Ele me olha com tamanha cumplicidade e me diz: Bom dia!
É fato, tudo melhora quando lembro que você existe!




***



sexta-feira, 24 de março de 2017

Eu preciso lhe falar das cores




Eu preciso lhe falar das cores.
Da luz refletida nas facetas do cristal.
Eu preciso lhe falar dos minúsculos pontos de luz que reluzem nos seus olhos, mesmo quando você só enxerga sombras.

Eu preciso lhe falar das cores. 




***

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Adagio & Allegro





Você é Sol
Eu sou Lua

Eu penso
Você pulsa

Você é explosão
Eu, introspecção

Eu sou calmaria
Você, pirotecnia

Você é vermelho
Eu sou cinza

Eu absorvo
Você irradia

Opostos congruentes
Contrariamos a geometria!





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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Punks, poetas e putas..




Decidi seguir os punks, os poetas e as putas. Os rudes, os rotos e os rasgados.
Decidi seguir os lúdicos, os loucos e os libertinos. Os arcanjos, os amantes e os alucinados.
Decidi seguir os magos, os meigos e os malditos. Os toscos, os tristes e os tarados.
Decidi seguir os bárbaros, os biltres e os banidos. Os velhos, os vultos e os viciados.
Por onde e para onde eles me levarão, eu não sei.
Nem me importa.












***

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

stalker

Minha lente só vê a cor dos seus olhos. Tatuei seu nome no pulso.
Só bebo da sua fonte. E sofro de abstinências quando não o vejo.
Vivo queimando pelos cantos. Não escrevo mais nada que preste. Não cuido de nada. E me falta paciência pra tudo o mais que não seja você. Tudo me angustia. Ou me enche de tédio.
E me flagro lhe perseguindo, à espreita. Feito uma daquelas personagens perturbadas de filmes de suspense.
E não sei lidar com a distância que, indiferente e soberba, me afasta de você.
Você me faz mal. E me faz tão bem...
Suas virtudes me encantam, seus vícios me fascinam.
E seu corpo me tortura, cada centímetro.
Tem dias em que não procuro a sua fotografia, não procuro notícias suas, não ouço a sua canção. Mas no decorrer de algumas horas lá estou eu, ávida por você. Por sua voz, seu olhar, sua força e suas fraquezas.
E, então, passo horas me alimentando de você. Cada gesto, cada palavra.  E volto o filme infinitas vezes.
Às vezes amaldiçoo o dia em que soube da sua existência.  Porque viver assim é extenuante. Desejar assim, quase um pecado.
Mas que vida valeria a pena sem saber de você? 

***














sábado, 2 de julho de 2016




Poderia pedir às nuvens que pegam carona no vento, que me levassem até  você.
Ou que levassem, ao menos, a minha palavra. Para que você soubesse o quanto eu lhe entendo.
Poderia pedir a elas, as nuvens, que levassem até você a minha ternura.
Mas elas não me ouviriam.
São egoístas, as nuvens.
Elas não se importam com a minha solidão. Ou com a sua.




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sábado, 18 de junho de 2016







Dois pontos de luz, seus olhos.
Intrigantes, evasivos.
Vão e voltam, lascivos.
Enquanto você dança, mansa...






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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016







Curioso sentir-se assim, viva. Apesar da dor. Porque descobrira, então, que a dor era melhor do que nada.  E o ressentimento virou quase gratidão. 






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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Asfalto Molhado..







Sigo os seus passos incertos no asfalto molhado.
 E essa é minha maior prova de amor.





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domingo, 16 de novembro de 2014

Alegria, alegria..






O sal.
Arrebentavam nas pedras, as ondas.
O sol.
Ardia, purificava.
E uma alegria bendita, profunda, alumiava tudo à sua volta.
Alimento perene.
Oxigênio.
Vida.

Toma, leva contigo por onde fores.
Reparte.
E multiplica.

Bendito seja o fruto do teu sorriso.





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domingo, 6 de julho de 2014

Olhando o mundo, da varanda.




Ela desce, correndo, a ladeira.
Os cabelos longos, lisos, soltos.
Dourados, quase mel.
Bailam de um lado para o outro,
Brilhando intensamente sob o Sol.
Bela imagem, logo cedo, belo presente
Para começar bem o dia!




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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Renovação



Limpou as gavetas
Rasgou as cartas
Secou as lágrimas
Varreu o chão
Abriu as janelas
Respirou

Cortou os cabelos
Cortou os vínculos
Tirou os sapatos
Botou o vestido
Andou na terra
Desfrutou

Escreveu o livro
Plantou a árvore
Libertou o filho
Descobriu seu mundo
Buscou o sonho
Ressurgiu




***